Escritor e pesquisador histórico, bacharel em Direito e Relações Internacionais, o curitibano de 33 anos defende a valorização dos povos indígenas, das comunidades afro-brasileiras e de um patrimônio cultural frequentemente ameaçado pelo abandono

Cultura | história, patrimônio e sociedade
O Brasil conserva uma relação contraditória com a própria história. Enquanto celebra os grandes personagens de seu passado, permite que parte dos testemunhos materiais e humanos dessa trajetória desapareça entre edifícios deteriorados, documentos esquecidos e comunidades cuja contribuição à formação nacional nem sempre recebe o devido reconhecimento. É nesse encontro entre memória e esquecimento que o escritor e pesquisador histórico Carlos Egert, de 33 anos, situa parte de sua atuação intelectual e cultural.
Nascido em Curitiba, no Paraná, em 18 de maio de 1993, e radicado no Rio de Janeiro, Egert é bacharel em Direito e Relações Internacionais. Sua trajetória reúne produção literária, pesquisa documental, recuperação de fotografias antigas e iniciativas voltadas à preservação do patrimônio histórico brasileiro.
Presidente do Diretório Monárquico do Brasil, organização dedicada ao estudo e à divulgação da história monárquica nacional, Egert manifesta preferência pelo modelo de monarquia constitucional parlamentarista. Para ele, a discussão sobre as formas de governo não deve se limitar à contraposição entre passado e presente, mas envolver questões contemporâneas como estabilidade institucional, representação política, continuidade do Estado e responsabilidade dos poderes públicos.

Sua posição monarquista, entretanto, convive com uma preocupação mais abrangente: a necessidade de reconhecer a pluralidade dos protagonistas da história brasileira.
Uma memória que não pertence apenas aos palácios
Na perspectiva defendida por Egert, preservar a história do Brasil significa reconhecer tanto os personagens tradicionalmente associados ao poder quanto aqueles que tiveram suas experiências relegadas às margens da narrativa nacional. Essa compreensão orienta seu interesse pela memória dos povos indígenas, das comunidades quilombolas e da população afro-brasileira, cujas contribuições culturais, políticas e sociais são fundamentais para compreender a formação do país.
O pesquisador sustenta que a valorização do patrimônio histórico não pode restringir-se à conservação de palácios, igrejas e monumentos associados às antigas elites. Deve alcançar também os espaços de resistência, os territórios tradicionais, os arquivos comunitários, as manifestações religiosas e os testemunhos da experiência afro-brasileira e indígena.
A trajetória de figuras como Luiz Gama, José do Patrocínio e outros protagonistas das lutas abolicionistas integra esse horizonte de interesse, no qual a história é compreendida não apenas como registro dos acontecimentos, mas como instrumento de reconhecimento social.
O patrimônio brasileiro diante do abandono
Outra preocupação presente em sua atuação é a deterioração de imóveis históricos, acervos documentais e monumentos públicos. Para Egert, o abandono do patrimônio representa uma perda que ultrapassa a dimensão arquitetônica. Cada construção descaracterizada, fotografia destruída ou arquivo negligenciado compromete a possibilidade de futuras gerações compreenderem as transformações políticas, sociais e culturais do país.
Seu trabalho com a restauração e colorização digital de fotografias antigas procura contribuir para a aproximação entre o público contemporâneo e personagens de outras épocas. Ao recuperar visualmente documentos e imagens, o pesquisador busca despertar interesse por fontes históricas que frequentemente permanecem restritas a arquivos e coleções especializadas.
A defesa da preservação também alcança o patrimônio imaterial, constituído por tradições, práticas culturais, saberes ancestrais e manifestações coletivas cuja continuidade depende do reconhecimento e da participação das próprias comunidades.
Monarquia parlamentar, pluralidade e identidade nacional
Embora a defesa da monarquia constitucional seja um dos aspectos mais visíveis de sua atuação, Egert procura situá-la em um debate mais amplo sobre a organização institucional brasileira. O parlamentarismo monárquico, modelo de sua preferência, distingue as funções de chefe de Estado e chefe de governo, atribuindo a condução cotidiana da administração a um gabinete politicamente responsável perante o Parlamento.
A proposta, no entanto, permanece objeto de divergências no Brasil, cuja Constituição estabelece a forma republicana de governo e cuja população rejeitou a monarquia no plebiscito de 1993. A eventual mudança exigiria profundo debate constitucional e democrático.
Na visão do escritor, a discussão histórica sobre a monarquia pode coexistir com a defesa dos direitos fundamentais, da diversidade cultural e da proteção das comunidades tradicionais, sem que a valorização do período imperial implique desconsiderar suas contradições, sobretudo a escravidão e a violência sofrida pelos povos indígenas.
Literatura como continuidade da pesquisa
Autor de Guia do Monarquista – Volume I e Terceiro Reinado, Egert também desenvolve projetos literários que procuram aproximar investigação histórica e criação narrativa. Entre os trabalhos anunciados estão O Profeta dos Sertões, romance ambientado no universo histórico de Canudos, e A Janela de Byron, narrativa voltada às relações humanas, à memória e às transformações da vida familiar.
Seus interesses literários e historiográficos convergem em uma preocupação recorrente: a maneira como indivíduos e sociedades se relacionam com aquilo que permanece, desaparece ou é deliberadamente esquecido.
Entre o passado e a responsabilidade do presente
A atuação de Carlos Egert se desenvolve em um campo no qual diferentes concepções de história, identidade e organização política se encontram. A preferência pela monarquia parlamentar constitui uma de suas posições públicas, mas a preservação patrimonial e a valorização das diversas matrizes culturais brasileiras ocupam lugar igualmente importante em seu discurso.
Seu trabalho parte da compreensão de que a história nacional não pode ser reduzida a uma sucessão de governos, dinastias ou acontecimentos militares. Ela também se manifesta nas experiências dos trabalhadores, nas tradições indígenas, nas comunidades afro-brasileiras, nos documentos familiares e nos edifícios que resistem à passagem do tempo.
Entre a pesquisa, a literatura e a defesa da memória cultural, Egert procura contribuir para um debate que ultrapassa suas próprias convicções políticas: o de que uma nação não preserva verdadeiramente sua história quando escolhe recordar apenas uma parte dela.



















