Nos tempos da Real Villa de Queluz: Entre a antiga palmatória e o ensino moderno

Por Luiz Otávio da SilvaPesquisador/ pós-graduando em História

Vem do final do último quartel do século XVIII o primeiro registro que este artigo trás, sobre a história da Educação nessa terra pós Aldeia dos Carijó. Era o ano de 1795 quando José Crisóstomo de Mendonça fundou nesse solo da Real Villa de Queluz a Escola Régia de Primeiras Letras. Nela, o próprio Mendonça exerceu por vários anos o ofício de professor. Nos arquivos da Biblioteca Nacional encontra- se um “Atestado com juramento” que comprova a abertura do educandário.


Documento datado de 25 de fevereiro de 1795 – Real Villa de Queluz.
Fonte: Coleção Casa dos Contos, Biblioteca Nacional.

Em 1802, o mesmo José Crisóstomo de Mendonça ainda mantinha sua Escola na Real Villa de Queluz.



Documento datado de 31 de março de 1802 – Real Villa de Queluz.
Fonte: Coleção Casa dos Contos, Biblioteca Nacional

Já em 1821, um afamado professor foi nomeado para lecionar na Real Villa, era o senhor Agostinho José Ferreira Bretas que havia trabalhado em escolas de Ouro Preto e Cachoeira de Campo. Um documento também pertencente Biblioteca Nacional traz a certeza do período de ensino na Villa. Nele é atestado que Bretas lecionava as primeiras letras na Real Villa de Queluz.




Documento datado de 08 de outubro de 1821 e assinado por Jose Ignacio Gomez Barbosa (futuro Barão de Suassui) e por Eugenio Pereira da Silva – Real Villa de Queluz.
Fonte: Coleção Casa dos Contos, Biblioteca Nacional.

Um fato merece destaque na Educação da cidade na era Real Villa de Queluz – a Educação dos não-brancos, ainda na primeira metade do século XIX.  A obra “História da Educação do Negro e outras histórias”, publicada no ano de 2005 pelo Ministério da Educação, trás a luz do nosso conhecimento que em 1838, no antigo distrito do Redondo (hoje Alto Maranhão), já havia a presença de crianças afrodescendentes frequentando a  escola. “Na lista nominativa de habitantes do distrito de Redondo, pertencente ao município de Queluz, encontramos 58 crianças na escola: 39 pardos, 10 brancos e 9 crioulos. (ROMÃO, 2005, p. 109)”.  Uma presença majoritária de crianças não-brancas devidamente matriculadas na escola. 

Século seguinte, no dia 23 de dezembro de 1928 um grande acontecimento foi motivo de muito entusiasmo e arrebatamento de sentimentos. Era o dia da colação de grau das primeiras normalistas diplomadas pela Escola Normal Nossa Senhora de Nazareth. Tão grandiosa foi a formatura que o dia começou com comunhão às primeiras horas do raiar do sol.  Houve ainda missa solene acompanhada de harmônio, benção do Santíssimo Sacramento e Te Deum na capela do Colégio.

Nesse início de século, existia na parte direita (para que vinha do belo Rio de Janeiro, segunda capital do Brasil)  da linha  férrea outros importantes colégios como o Gymnasio Queluziano, Escola da Companhia Meridional, Escola da Água Preta e Grupo Escolar Domingos Bibiano. O primeiro descrito nesse parágrafo era dotado de fama regional. Modelado pelo Colégio Pedro II; fiscalizado pelo Governo Federal, possuía juntas examinadoras officias. Já oferecia curso de dactilographia. Ofertava ainda as modalidades internato semi-externato e externato.

Já por essa época, Queluz era celebrada pela Educação de qualidade ofertada aos desejosos de conhecimento e de crescimento enquanto indivíduos instruídos e capazes de não ser dominados pela própria ignorância ou pela opulência dos ditos “alta sociedade”. Mas, com uma inegável verdade, a história daqueles que são desfavorecidos já vem de longe.  A frase  “Educação, direito de todos e dever do Estado e da família (…)” ainda demoraria para ser concebida e escrita. Isso ainda continua sendo “outros quinhentos”.

Com o crescimento populacional no outro lado da cidade, por onde serpenteia o rio Bananeiras, dois estabelecimentos de instruções lá foram criados, o Instituto Profissional de Lafayette e o Grupo Escolar Pacífico Vieira. Esses educandários foram responsáveis por absorver toda a gente dos seus arredores que necessitavam estudar, acolhia também os muitos e importantes imigrantes que desembarcavam das fumacentas locomotivas. As duas escolas eram ainda dois pontos de muitas e grandes convergências de culturas diversas, de costumes dessemelhantes. Havia também nesse tempo escolas em Buarque de Macedo, São Gonçalo e na Passagem do Gagé. Em maio de 1929, Joaquim Mendes Junior foi nomeado, pelo Governo do Estado como   inspetor auxiliar de Educação no populoso povoado de São Gonçalo.

Outro memorável fato, desconhecido por muitos, deve ser trazido à luz por este artigo para que tenhamos respeito pela história e pelos fatos. O grande ocorrido se deu em 1929 quando aqui, surgiu a ideia de se criar uma comissão encarregada de levar educação aos presos da cadeia de Queluz.  Dizia-se que “a cadeia desta cidade ê o que se vê, com suas grades em quadrado, lembra uma jaula de feras. Pega-se num desgraçado, que afinal de contas é homem como nós, e atira-se com elle para ali dentro, como se fosse um bruto, e elle lá fica para que apodreça”. Uma descrição tal como esta, com tamanha verdade, mas pareceria  uma invencionice de romance policial, se não estivesse estampada em jornal da época. 

Lançaram então a ideia: “a  solução é mais simples e está sob as nossas mãos. Acha-se. como sempre, nesse inexgottavel thesouro que é o coração feminino. Uma pequena commissão de tres ou quatro senhoras terá mais força que o proprio Estado para transformar aquelle cubículo tremendo em úma casa de salvação, em que para a defesa social, um homen entrará para uma instituição humana que como homem o tratará e o regenerará.  Para a acção dessa commissão de senhoras, podemos traçar o seguinte simples esboço, que em breve tornará a Cadeia uma CASA DE EDUCAÇÃO”. Essa grande utopia foi criada pela Sociedade de Patrocínio de Menores.

Nas décadas seguintes, com a expansão da cidade que cresceu em todas as direções, o surgimento de novos modelos de educandários foram surgindo. Escolinhas, creches, escolas públicas estadual e municipal, particulares, técnicas e cursos superiores mudaram as antigas e parcas nomenclaturas das nossas Escolas. Quanto ao Ensino à Distância, isso já é um acontecimento do século XXI.